Um conto brasileiro




Era uma vez uma funcionária pública em Brasília que juntamente com algumas amigas passaram a desenvolver um pequeno negócio. Não ganhava muito, mas o prazer que tinham em trabalhar com o que realmente gostava, compensava.

Ela resolveu largar o emprego e se dedicar inteiramente ao que antes era apenas um hobby. Confessa que um dos motivos para sua decisão foi constatar que vários colegas de trabalho falavam o tempo todo de planos para a aposentadoria. Segundo eles, finalmente poderiam fazer o que realmente gostavam. Foi quando caiu a ficha: 

_ Percebi que não queria aquilo para mim. Minha vida está acontecendo agora, não posso ficar pensando que só vou começa-la daqui a alguns anos... ela está acontecendo neste instante! 

Tomou coragem e pediu demissão. O mais interessante é que muitos clientes, depois que estabeleciam uma relação de amizade, passaram a perguntar por que ela não fazia um concurso.

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Pobre país onde o maior sonho para quem tem capacidade é fazer um concurso público! Vejam que, para muitos, o concurso não é a porta de entrada para uma carreira, é o objetivo final. Passar no concurso, qualquer que seja, é a meta de vida. Depois? Bem, depois a gente vê!

O concurso público gera dois grandes grupos.  

O primeiro lota o estado brasileiro. Passam algumas horas diárias tentando fazer o tempo passar mais depressa, pois, no fundo, têm pouco ou nenhum interesse pelo que fazem. Não conseguem imaginar como seriam seus dias sem acesso as redes sociais. É fácil constatar, basta ficar atento ao local do cafezinho. Estão sempre falando dos planos para as férias ou projetos para a aposentadoria, muitas vezes contando os anos. Não se trata de contar dias, mas de contar anos! Já escutei gente fazendo planos para o que vai fazer quando se aposentar daqui a vinte anos! Muitas vezes estão pensando no próximo concurso, que paga um salário bem melhor. Não raro, usam seu tempo no serviço para estudar para outro concurso. 

O segundo grupo está lotando os cursinhos espalhados pelo Brasil, muitos à distância. Já é quase uma profissão, os concurseiros. Li em algum lugar que em média um concursado passa no 13º concurso. Imagino que signifique uns 3 ou 4 anos estudando. Esta estatística, como todas, engana. Refere-se apenas aos que passam, e quantos não conseguem? Quantos perdem anos preciosos para depois desistir, sem esperanças? Quanto custa para nossa sociedade toda esta gente estudando para provas que pouco ou nenhuma relação têm com o cargo que exercerão?

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Vi uma ementa de concurso para banda de música, destas que desfilam e tocam em solenidades, que exigia trigonometria e logarítmos. O que diabos um tocador de tuba vai fazer com senos e cossenos? Não precisa ser muito inteligente para perceber que a prova serve apenas para entrar no paraíso __ que como as nossas utopias terrestres, parece mais bonito visto de fora que de dentro. 

Alguém já me replicou que pelo menos estas pessoas estão estudando. Será mesmo? Pode se chamar de educação um conjunto de memorizações inúteis, leituras dinâmicas e macetes de cursinho? Pior, com o ENEM e provas afins, a dinâmica do concurso público foi enfiado ainda mais dentro da escola... que já não ensina grande coisa, diga-se de passagem. É o fim da picada que o esquema de  cursinho já comece no primeiro grau.

O saudoso professor José Munir Nasser gostava de falar sobre o padre Ivan Illich, que argumentava que existia uma gigantesca diferença entre ensino e educação. Entendia o ensino como a atividade que acontece nas escolas formais, onde professores e alunos se encontram, aulas são dadas, provas realizadas e, ao final, o aluno recebe diploma, seu objetivo principal. Na verdade, este papel é um senha para concorrer a cargos específicos. Alguém consegue imaginar porque um lixeiro precisa do segundo grau completo que não seja  diminuir o número de candidatos para a seleção? Já pegaram uma prova de soldado da PM do Rio para fazer? Mais difícil que muito vestibular que se tem por aí. Alguém já definiu que a escola é um lugar em que o conhecimento passa dos livros didáticos para o caderno do aluno sem passar pelo cérebro nem do professor e muito menos do aluno.

Claro que pode haver alguma educação neste processo. A sorte pode colocar um bom professor diante de um aluno que quer aprender. Mas quantas vezes isso acontece? Qual é a regra e qual é a exceção? 

Educação, como entendia o padre Illich, só acontece quando o aluno efetivamente quer conhecer e usa todos os instrumentos a seu alcance para tal, por vezes até um professor. 

Alguns Números

  •  Pesquisando “concurso público no google” temos 2,3 milhões de entradas.
  •  Pesquisando “concurso público” no youtube temos 290 mil vídeos
  •  Há vídeos com mais de um milhão de views.

Voltando ao tema, depois desta digressão, é  questionável que o estudo para um concurso público possa ser chamado de educação sem denegrir a substância do que seja educação. Na maioria das vezes, o tempo dedicado ao concurso é tempo perdido mesmo, independente se o candidato será aprovado ou não.  

Quanto custa para uma sociedade que as pessoas deixem de seguir suas vocações pessoais para se submeter a um cargo em troca de estabilidade e melhores salários? Quanto custa para uma pessoa as 40 horas semanais fazendo algo que não gosta e, em muitos casos, detesta? Qual o sentido de alguém se formar em biblioteconomia, por que é um vestibular fácil e um curso rápido, apenas para ter um diploma de terceiro grau para poder concorrer a determinados cargos? Já pararam para pensar no absurdo que é fazer um concurso público para… espião? Alguém consegue imaginar um país que monte sua agência de espionagem por concurso público?

Sou funcionário público e felizmente posso dizer que gosto do que faço, que segui o que considerava uma vocação. Até porque estou em uma área do funcionalismo conhecida pelos baixos salários (na verdade derrubamos o salário médio do funcionalismo ajudando a enganar a população). Muitos que entraram comigo fizeram outros concursos e se mandaram em busca de melhores salários. Outros, tentam até hoje. Os dois únicos concursos que fiz foram internos, e me fecharam mais portas do que abriram, mas esta é outra estória. O importante é que dinheiro pode trazer felicidade, mas quando resultado de um projeto pessoal, da realização de nossas próprias potencialidades. Tratar salário como prêmio pelo sacrifício de trabalhar me parece uma escolha rasa, muitas vezes um caminho para a infelicidade. Tenho amigos que estão com sérios problemas de depressão e não entendem o porquê.

O caso que contei no início foi verdadeiro. Aconteceu mesmo. Uma conhecida trocou o sonhado emprego público por um modesto negócio mas que lhe dá prazer. Ela colocou a realização pessoal acima de seu medo e conforto. Exigiu coragem e ela tem minha admiração.

É bom ter esperanças que algum dia esta situação possa mudar e tenhamos uma sociedade mais harmônica e solidária. Com funcionários públicos vocacionados, que gostem do que fazem , comprometidos com suas carreiras. Pelo bem de nosso país. 

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© MARCOS JUNIOR 2016