Três Novelas de Stefan Zweig


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(Vinte e Quatro Horas na Vida de uma Mulher, Confusão de Sentimentos, Declínio de um Coração)


Em inglês, há uma distinção entre novel e romance, palavras que possuem sentidos distintos em português. Novel é uma narrativa que se concentra em um único personagem, sendo tudo mais secundário. Já no romance, há tramas paralelas, personagens tão ou mais importantes que o protagonista. Justamente o que conhecemos como novela no Brasil, um termo que usamos apenas para a televisão. 


Stefen Zweig é mais conhecido no Brasil por ter escrito O País do Futuro, e ter se suicidado logo a seguir. Austríaco, judeu, fugia da II Guerra Mundial quando veio parar no país de Vargas e não se conformou com a segunda destruição da Europa. Preferiu deixar o mundo do que viver o terror do totalitarismo, como conta em sua maravilhosa auto-biografia O Mundo que Eu Vi. 


Autor prolífico, escreveu de quase tudo, com destaque para as biografias e novelas. Uma edição da Editora Record, de 1999, apresentam três delas, com tradução da Lya Luft. 


Vinte Quatro Horas na Vida de Uma Mulher conta exatamente o que o título promete. Com maestria, a partir de um acontecimento em uma pensão, uma mulher começa a contar para o narrador um episódio que se deu em um único dia, anos antes. Ela queria mostrar como era possível se apaixonar por um homem em um único dia, e perdê-lo. A angústia genuína de quem se colocou em alta consideração, que acreditou poder salvar a alma de uma pessoa com seu amor, para depois receber um duro golpe da realidade, nos mostra que o mundo não é como gostaríamos que fosse.


Mostra também o efeito devastador da culpa, que vai destruindo e pessoa internamente. Há uma pressa em julgar o outro, muitas vezes ampliando desnecessariamente pequenas faltas. No brilhante parágrafo que abre a novela, Zweig narra: "A maior parte das pessoas tem fantasia embotada. O que não as toca diretamente, o que não atinge duramente seus sentidos com sua ponta afiada, quase não as excita. Mas se acontece diante de seus olhos, bem perto da emoção, ainda que seja algo insignificante, logo desencadeia nelas uma paixão desmedida. Então de certa forma substituem a rara simpatia por uma veemência exagerada e inadequada." É fácil condenar; o difícil é se colocar no lugar da pessoa e tentar entendê-la. Foi essa atitude por parte do narrador, um pouco pelo desejo de se opor aos outros, que despertou a curiosidade de uma velha senhora, que termina contando-lhe o segredo que esconde há 20 anos. 


Confusão de Sentimentos é ainda mais profundo. Um jovem estudante de filologia se depara com um estranho mestre, capaz de arrebatar a platéia com aulas monumentais e alternar com discursos protocolares, completamente sem inspiração. Como poderia tamanha alternância de comportamento? O jovem se torna auxiliar do velho professor e  percebe-se como a relação de um mestre com seu aluno é complexa, capaz de forjar uma alma, para o bem e para o mal. Para fechar a estória, há a atlética e atraente esposa do professor, servindo de catalizador para os acontecimentos finais da novela. 


Há uma certa melancolia em ver uma nobre alma se comportar como o mais vulgar dos seres, incapaz de dominar seus desejos e emoções. Triste que a incapacidade de viver plenamente suas inclinações leva essa pessoa a jogar fora seu enorme talento; isolando-se do mundo. O medo de sofrer conduz à morte do espírito. 


A seleção fecha com uma novela breve, Declínio de um Coração, em que um velho banqueiro tem uma decepção com a filha e, sem ter como se comunicar com ela e sua esposa, sofre suas amarguras ao mesmo tempo que lida com um infarto eminente. O coração começa a falhar, fisicamente e emocionalmente, sendo que um precede o outro em funcionamento. Como se um homem emocionalmente morto não pudesse continuar vivo.


São três obras belíssimas, que nos fazem refletir sobre os limites de nossa própria existência. Os três protagonistas estão em fases diferentes da vida, um jovem aluno, uma mulher experiente e um velho banqueiro, mas todos tem que lidar com o fato que a realidade nunca é o que queremos. Nos três a consequência de uma grande decepção emocional é a mesma: tornam-se tristes e levam uma existência até certo ponto vazia, sem muito mais sentido, quase que em piloto automático. Guardam na memória uma acontecimento que os marcou, mas que não podem contar para ninguém. São espíritos de imensa vivacidade mas que se conformam a destinos amputados, vivendo de forma até certo ponto farsesca. Sombras dos indivíduos que poderiam ser. 


© MARCOS JUNIOR 2016