Sobre o tempo



O tempo talvez seja a mais complexa questão filosófica já tratada pelo homem. Santo Agostinho dizia que sabia muito bem o que era o tempo, desde que ninguém o perguntasse. Creio que foi quem chegou mais perto de dar um tratamento adequado ao problema. O tempo está em uma espécie de altar que não conseguimos alcançar, além do limite da racionalidade humana. Quanto mais tentamos saber sobre ele, menos o compreendemos.

O filme About Time (2013), de Richard Curtis, trata do tema com sutileza, sem enfrentá-lo diretamente. Tim, ao completar a maioridade, tem uma importante conversa com seu pai que lhe revela que os homens da família possuem a capacidade de voltar no tempo e viver novamente a partir daquele instante. Seus antepassados usaram esse poder para fins diversos; seu pai para ler livros, seu avô para ganhar dinheiro. Péssima escolha, conta o pai, acabou louco. Dominar o tempo é algo tão poderoso que mudaria completamente a existência humana. Por isso Tim tem que aprender a ser moderado, e impactar o mínimo da vida das pessoas.

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Ele logo aprende que há um limite para seu poder. Se voltar no tempo para antes do nascimento de uma pessoa, a aleatoriedade agiria sobre a fecundação e o bebê seria outro. Na prática, seria como perder um filho, pois ele não existiria mais, sendo substituído por outro. O nascimento de um filho seria o limite do quanto poderia recuar no tempo.

Também não teria como evitar a própria morte, muito embora pudesse manter a vida de alguém através de seu recuo até o ponto que aquela pessoa estava viva. Pode até salvar uma vida, no caso de acidentes. Mas, podemos? Como ele percebe, voltar no tempo para mudar um destino pode ter sérias consequências para a nossa própria, e quase perdeu a mulher que ama ao tentar ajudar um dramaturgo em dificuldades.

Se o homem pudesse agir no tempo como age no espaço, as consequências seriam tão poderosas que é questionável se a vida seria possível. Talvez por isso seja uma questão tão complexa que nossa própria razão nos impede da alcançá-la _ não por acaso os que melhor o compreenderam foram referenciados como exemplos máximos de genialidade científica.

O mais interessante é que toda essa complexidade em relação ao tempo acaba ressaltando as coisas mais simples da vida. Essa é a lição que a parte final do filme termina ressaltando: a importância de cada dia. Não se trata do carpe diem, de viver o último dia como se fosse o último, mas de saber que cada vida importa para escrever nossa trajetória e definir quem somos. Existem grandes decisões a serem tomadas, mas elas são poucas. A esmagadora maioria de nossas decisões são, no fundo, insignificantes. Muitas vezes são as pequenas decisões, como ir no teatro em um determinado dia, que acabam fazendo a diferença.

Tim percebe que nossas tensões diárias nos impedem de ver a maravilha que nos cerca e nos conectar realmente com as pessoas. Estamos tão preocupados com decisões de trabalho, resultado de uma reunião de negócio, de uma entrevista de emprego, de um jogo de futebol, que só percebemos que nossos filhos cresceram quando já estão partindo. 

O tempo não pode ser uma ampulheta, nos lembrando a cada instante o tempo que já passou. Temos que vê-lo como uma sequência de oportunidades para aproveitarmos como pudermos. Cada hora é uma chance de brincar com um filho, abraçar nossa companheira ou companheiro, conversar com nossos pais, ler um bom livro ou simplesmente contemplar o cosmos. Nunca é tarde para vier a vida mais plenamente, basta colocarmos o que realmente importa no lugar que merece. 


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© MARCOS JUNIOR 2016