Filmes que nos ensinam a ver




A Dupla Vida de Verônica (1991)


Duas Verônicas nascem no mesmo dia, uma na Polônia e outra na França. Misteriosamente, suas vidas estão conectadas, quase como se vivessem em paralelo, com angústias e talentos parecidos. Uma delas morre cedo, e de alguma forma sua forma impacta a vida da outra, que diante de uma tristeza profunda procura entender o que está acontecendo.


O cineasta polonês Kieslowski ficou conhecido internacionalmente a partir desse filme, que lhe deu condições para filmar sua obra prima posteriormente, a trilogia das três cores. Desde a trilha sonora maravilhosa, do parceiro de sempre Zbigniew Preisner, pelo talento da estonteante, em todos os sentidos, Irene Jacob, o filme é deslumbrante e profundo. Uma meditação sobre a vida, sobre nossa incapacidade de prever o que vai acontecer e entender o destino, da nossa relação com o divino. Há um toque de fantasia, um mistério, que nos deixa perplexos, sem saber o que estamos de fato vendo.


O melhor de tudo é que o cineasta resiste à tentação de nos dar respostas, até porque provavelmente não as têm. O filme vai falar de uma forma especial a cada um, e somos nós que temos que buscar as respostas que queremos. Para mim, o filme trata da percepção que podemos viver diferente do que vivemos e isso nos dá uma responsabilidade especial sobre nossas escolhas. O que queremos da vida? Como escolhemos vivê-la? O que fazemos com nossos talentos? São perguntas que ficam subtendidas no filme.


O fato das duas Verônicas serem uma polonesa e outra, francesa, também me chamou atenção. Seriam referência a duas nações católicas da Europa? Uma no leste e outra no ocidente? Teria o sentido de alegoria? De mostrar que a Polônia morreu nas mãos do totalitarismo e que a França ainda tenta sobreviver? O que significa a velha senhora caminhando, que recusa ajuda de Verônica? A Europa? A Igreja?


Um filme que não nos dá respostas imediatas ou fáceis. É preciso refletir, pensar no que viu e assistir de novo, e de novo. São muitos símbolos, nuances, particularidades. Além disso há uma atmosfera que ninguém soube criar no cinema como Kieslowski. Você sente a angústia dos personagens, muito pela música impressionante de Preisner. Aliás, a música tem papel central nos filmes do cineasta, talvez sugerindo a redenção pela arte, sendo a música a mais profunda de todas, aquela que nos aproxima mais do divino pela sua capacidade de criação. 


 A Dupla Vida de Verônica é um convite à meditação metafísica de primeira ordem, além de um filme belíssimo, com cenas que ficam na memória, como Veronika andando no meio de um protesto, preocupada com suas partituras, ou de Veronique assistindo um impressionante show de marionetes. Pura arte, pura beleza. Existem filmes que existem para nos fazer ver. Esse é um deles. Quem tiver o espírito aberto para as sensações que ele desperta, e a mente inquieta para tentar entender o motivo desse impacto, terá uma experiência de contemplação amorosa no sentido descrito pelos antigos filósofos místicos gregos.

© MARCOS JUNIOR 2016