Em Defesa dos Nossos Antepassados




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O mundo contemporâneo tem, como uma das suas principais características, o rompimento com o passado; a crença que o novo é  melhor do que o velho. Não é difícil de constatar. Quantas propagandas de televisão se referem a um “novo” produto, mesmo que seja para lá de antigo. Quantas vezes no mundo da política escutamos que determinado candidato ou partido representam uma nova política? 


 Ortega y Gasset tratou deste tema no início do século passado, quando tratou do homem-massa. Uma das suas características, segundo o autor, era o rompimento com o passado. Este homem estava convencido que o mundo de possibilidades  que encontrava a sua volta era obra do acaso. Não reconhecia o esforço de gerações para que se chegasse ao nível tecnológico, econômico, político de sua época. Por isso desprezava o passado e se atinha apenas ao presente.


Ortega argumentava que o que diferenciava o homem do animal não era a inteligência, mas a capacidade de reter memória. Existem animais que se mostram bastante inteligentes mas, por não conseguirem guardar informações, não conseguem aprender e evoluir. A humanidade tem uma bagagem cultural que se configura na tradição; é perigoso desprezá-la. “O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro de seus erros, a longa experiência de vida decantada gota a gora durante milênios (…) Romper a continuidade com o passado, querer começar de novo, é aspirar a descer e plagiar o orangotango“.


Isto não quer dizer que estejamos presos a esquemas que não funcionam. A questão é saber o que não está funcionando e o porquê. Muitas teorias modernas de liderança trazem estórias que mostram o passado como algo que caducou.  Se não se sabe porque uma coisa é feita, muda-se. A palavra chave é inovação, mudança. 


É neste ponto que me questiono. Acho que para mudar algo, deve-se estudar a fundo o problema e estar convencido que não funciona ou que pode melhorar. Na dúvida, deve ser mantido. Por que tanta pressa com a mudança? Por que não fazê-la de forma segura e consciente? Por que o desprezo automático com nossos antepassados?


A educação é um grande exemplo do perigo da mudança sem reflexão adequada. É lógico que não se deve desprezar as novas tecnologias e as novas variáveis do mundo moderno; mas daí a jogar no lixo a tradição vai uma distância muito grande. No Brasil existe um ímpeto de mudar nossos processos educacionais pelo ouvi dizer. Nossos burocratas educacionais ouvem falar de determinado autor, de determinado método revolucionário e pronto, mudança radical. O resultado está aí para quem quiser ver, o quase total fracasso do sistema educacional brasileiro.


A educação é só um exemplo. Nunca a mudança foi tão desejada por todos, nunca foi tão presente em nossas vidas. O mundo está melhor por causa disso? As pessoas estão melhores? Onde está nos levando o desprezo pelo antigo?


Respeito muito a tradição e procuro escutar os mais velhos. Acredito que eles possuem respostas para problemas atuais, mesmo que formulados em bases diferentes. O mundo ocidental foi assentado na filosofia grega, no direito romano e na tradição judaico-cristã. Quando estas bases são solapadas, a própria civilização entra em crise, como argumentava o poeta T. S. Eliot.


Por isso desconfio do novo por ser novo. Não basta. É dar um cheque em branco para um futuro incerto. A mudança começa com o respeito ao passado, o seu entendimento. Somos o que somos por nossa tradição, temos que entendê-la; a partir daí estaremos aptos para pensar em modificá-la e, mais importante, com muito cuidado.

 


© MARCOS JUNIOR 2016