As Suplicantes e a Crise dos Refugiados




... a ordem de Têmis ainda governa os deuses, o mundo e a sociedade, como nas epopéias homéricas. Mas a existência do homem sob a ordem tornou-se difícil, na medida em que a themis não é mais guia para as decisões nas situações concretas.

Eric Voegelin


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Para Eric Voegelin a antiguidade clássica não poderia ser estudada como curiosidade histórica de uma época que já passou. Ao contrário, as descobertas dos gregos ainda são muito úteis para entender-mos a realidade. Os símbolos que eles criaram, que lhes permitiram expressar a verdade na consciência, serviram de bases para o estabelecimento da sociedade que vivemos. Em O Mundo da Pólis, segundo volume de Ordem e História, Voegelin nos apresenta sua interpretação para o símbolo da tragédia.


Ele trata do que seria sua essência: a decisão que precede a ação. Não se trata de uma ação qualquer, mas de uma ação orientada pela dike, a justiça. Alberto Guerreiro Ramos, no livro A Nova Ciência das Organizações, coloca alguma luz sobre o assunto. Analisando o significado de razão, retoma uma distinção feita por Max Weber, entre razão funcional e razão substantiva. A razão funcional trata do cálculo utilitário, que busca os melhores resultados, através da análise dos benefícios de cada aspecto da decisão. Já a razão substantiva trata da razão orientada pela moral. É dessa razão que Voegelin trata em sua análise da tragédia. 


É interessante para os dias atuais que Voegelin tenha escolhido a peça As Suplicantes, de Ésquilo, o inventor da tragédia, para exemplificar seu ponto. Após a derrota em um conflito no norte da África, uma região bárbara para os gregos, o rei derrotado leva suas 50 filhas para pedir asilo ao rei Pelasgo, de Argos, fiando-se em um ancestral comum, o rei Io. Por leis da guerra, os 50 filhos do rei Egito possuem o direito de desposá-las, mas apavoradas com a barbaridade dos conquistadores, as suplicantes tentam obter a proteção de Pelasgo. Caso não sejam atendidas, optarão pelo suicídio, enforcando-se na estátua da deusa Thetis em protesto contra o povo que não as acolheu.


Pelasgo lamenta a situação que se encontra. Se por um lado a lei está ao lado dos 50 filhos de Egito, e portanto tem a obrigação de negar asilo, ainda mais que trará para seu povo a ira dos bárbaros e ameaçará a segurança de todos, por outro, baseado em leis ancestrais, possui o dever de dar asilo a descendentes de seu próprio povo. Trata-se da questão da dificuldade de aplicar a themis, a lei, para uma situação particular e concreta. A experiência dos poemas homéricos, de recorrer ao aconselhamento dos deuses, já não mais existe. Apenas no mergulho às profundezas de sua própria alma poderá o rei chegar à dike, a justiça. A essência da tragédia está ligada justamente a esse mergulho, que leva o herói trágico a buscar a dike em sua alma e tomar uma decisão, aceitando a responsabilidade pelas consequências. 


Os poetas trágicos gregos descobriram uma nova forma de interpretar os mitos, buscando sancionar as novas fontes de agir na sociedade. No mito de Pelasgo, já não basta apenas descobrir a dike. Atenas se transformava rapidamente para uma democracia, o rei já não era uma fonte absoluta de poder. Pelasgo agora tem que convencer o conselho de que devem conceder asilo às suplicantes, mesmo a custa de uma possível guerra no futuro. É através da persuasão, a ananke, que o rei deve convencer o conselho  que devem agir de acordo com a dike e rejeitar o cálculo utilitário de sacrificar as 50 vítimas indefesas para evitar lutar contra um povo poderoso. Era a negação do princípio moderno de que as nações só agem por seus próprios interesses.


Tudo isso não se trata de curiosidade antiga, As Suplicantes está sendo encenada hoje diante de nossos olhos na crise dos refugiados. Milhões de sírios e outros povos estão entrando na Europa e Estados Unidos fugindo da guerra; e sim, há terroristas entre eles. Um cálculo utilitário mostra que conceder asilo a todos eles é no mínimo muito perigoso, como ficou evidenciado nos atentados recentes. Quando o candidato republicano Donald Trump fala em fechar fronteiras está realmente defendendo uma conduta pragmática: o ocidente estará mais seguro sem terroristas em seu território.


Mas o que a tragédia nos ensina? Que receber ou não refugiados é uma decisão que os povos devem tomar conscientemente. Como no caso de Pelasgos, a themis diz que se deve conceder asilo para refugiados de guerra. Mas como aplicar no caso concreto e pragmático dos refugiados do Oriente Médio? Negar que a entrada livre abre caminho para o aumento do risco de atentados, como fazem os progressistas, é exercício de futilidade que não resiste à realidade. Por outro lado, achar que se pode investigar quem entra para checar se não há terroristas, como faz a direita, é um exercício retórico. Não há como fazer isso, e o tempo que levaria praticamente equivale a fechar as fronteiras para os refugiados. Então, qual a solução? É aí que Voegelin, e os antigos, nos tem muito a ensinar. Os líderes devem fazer o caminho de Pelasgo e buscar em suas consciências a dike. Não significa simplesmente decidir pela abertura ou fechamento das fronteiras, mas entender que a sociedade deve ser envolvida nessa decisão. O líder tem o dever de explicar as opções, suas consequências e, sobretudo, persuadir os representes da sociedade sobre a ação que se deve seguir _ e a decisão pode implicar em sérios riscos para todos. Mas como os antigos entenderam, não é possível viver sem a orientação da dike. O cálculo utilitário não pode ser um substituto para a razão substantiva. Quando isso acontece, a sociedade entra em desordem cedo ou tarde, pois o pragmatismo não é fonte para a existência de uma sociedade na realidade do mundo.


Os líderes do ocidente possuem um grande dilema em suas mãos e não há solução fácil. Infelizmente pelo que vejo ninguém chegou perto de entender o problema nos termos que Voegelin coloca. A tragédia grega não é possível em um mundo que essas questões não possam ser percebidas, e por isso não sobreviveu à decadência de Atenas. O que se vê é muita histeria e o uso da dissimulação para esconder da sociedade que qualquer ação adotada terá consequências negativas, que não existe uma solução sem custo. Nisso, Donald Trump, Barak Obama, Francois Hollande e outros  comungam da mesma baixa política, que se tornou o padrão nas democracias do ocidente. Uma política que se baseia na enganação não tem como organizar uma sociedade. Os gregos descobriram que a verdade e a moral são faces da mesma moedas. E nós, crianças mimadas que somos, nos rebelamos contra essa descoberta. 

© MARCOS JUNIOR 2016