A Sereia de Homero




E se eu implorar e vos ordenar que me liberteis,

devereis amarrar-me com mais cordas ainda.

Canto XII, Odisséia


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Conta a mitologia que Odisseu, para evitar ser seduzido pelo canto das sereias, pede que lhe amarrem no convés e que não o obedeçam de maneira nenhuma. No livro Sapiens, Yuval Harari diz que a mitologia, assim como a religião, são mentiras que permitem que grandes grupos humanos sejam formados. Eric Voegelin, se estivesse vivo, certamente refutaria: mitologias são símbolos compactos da realidade. A verdade está lá, só não sabemos ainda exatamente qual é. No símbolo do canto da sereia há uma grande verdade imemorial: muito cuidado com quem diz o que você gostaria de ouvir.


Alguns anos atrás havia um senador que falava muita coisa que eu acreditava. Seus discursos, sua conduta parlamentar, era exatamente o que eu gostaria de ver em um representante. Até que soubemos que ele estava envolvido com a máfia dos caça níqueis; tratava-se do senador Demóstenes Torres. É nesse ponto gostaria de chamar atenção para duas formas de pensar bem distintas.


O fato do senador defender a agenda que eu acreditava não me fez sair em sua defesa. Ao contrário, enquanto seus adversários comemoravam sua queda eu me entristeci com ele.  No meu entender, Demóstenes não tinha o direito de fazer o que fez, de manchar um discurso correto com sua miserável conduta pessoal. Não disse que era golpe, não neguei os fatos mais evidentes, nem torci para o retardamento de sua queda. Ao contrário, desejei que a coisa fosse rápida para livrar as boas idéias de seu propagandista.

 

Uma coisa é o mensageiro, outra é a mensagem. Não é porque se defende o correto que se é correto. É perfeitamente possível uma pessoa errada defender o certo, como tantas e tantas vezes já aconteceu, assim como é possível a pessoa correta defender o errado. No primeiro caso temos a hipocrisia; no segundo o engano. Demóstenes era um hipócrita.


Existe, no entanto, os incapazes de perceber essa separação. Se a pessoa defende as idéias corretas, sem dúvida é correta. Se defender idéias erradas, certamente é errada. A coisa chega a tal ponto que o contrário também é verdadeiro, se a pessoa é correta, suas idéias são sempre corretas. É um círculo fechado e perfeito, como costumam ser as ideologias.

 

O que fazer diante da abundância de provas que pessoas que possuem as idéias corretas cometeram crimes? Um caminho é aceitar a verdade. O outro é os dos que se enfurecem, acusam os acusadores, criam conspirações, teorias de golpes, tudo menos reconhecer o que de fato aconteceu. Como só conseguem ver a coisa pelo foco da disputa política, acreditam que não podem admitir derrota. O problema da  política é que seu horizonte é muito curto; na prática acabam desacreditando as próprias idéias que acreditam. Ao dar salvo conduto para o hipócrita, contaminam a mensagem. Não entendem que devem ser as primeiras a denunciar e combater líderes que se desviaram e, dessa forma, salvar as idéias.

 

Retomando Odisseu, o segundo grupo se deixa levar pelo conto da sereia. Estão tão encantados em escutar a própria voz no outro, que se recusam a reconhecer a verdade. Uma luta inútil que só adiará o inevitável. Ficará apenas a vergonha de ter defendido o que não era defensável. Entre a mensagem que acredita e o mensageiro que a difamou, tentam ficar com os dois achando que preservando o mensageiro deixarão a mensagem intocada. Se tivessem lido Homero aprenderiam que se devem deixar amarrar no leme e não se deixar levar pelo discurso a ponto de sacrificar a realidade. E o leme de Odisseu era, acima de tudo, a prudência. A virtude política por excelência. 


© MARCOS JUNIOR 2016